Logos de Minas Gerais

boa noite e boa sorte

Letra B: O Beijo

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02/12/2008

Uma vez certo homem foi a certa rua dar um passeio. Naqueles tempos, assim como hoje, visto que aconteceu ontem, não era comum uma pessoa dar um passeio, ainda mais ao ar livre, que já estava preso há muito mais tempo que eu. Esse homem passou por uma praça e se deparou com um senhor de muita idade, quase um moribundo, cercado por alguns que nunca o tinham visto, mas que o ouviam dizer:

– No meu tempo, um beijo não era esperado. Nossa! Não era mesmo. Ele acontecia e só nos dávamos conta disso quando já havia acontecido. Vocês não têm idéia do que significava um beijo. Um beijo era o selo. Selo daquilo que seus pais contavam a vocês antes de dormir. Sim, daquela lenda, a do amor! De certo sabem que já existiu, não? Eu nunca vi, mas dizem que existe… Não sei por que as pessoas acreditam simplesmente sem saber o porquê das coisas, dizem que isso se chama fé… Eu tenho fé, nunca vi Deus e acredito nele, acreditam! Na verdade ver muitas vezes não é conhecer…

Aquele homem se sentou, nunca havia conhecido alguém que contasse histórias tão bem! Melhor que as de sua mãe! As pessoas envelheciam, mas as histórias, nunca. Com o tempo, sabem os senhores leitores, tudo vira história. O importante é que conforme aquele senhor continuava se afastavam aqueles que não acreditavam em contos de fadas. “Bah, tudo ilusão!”, pensavam alguns; “Pena que não tenho tempo…”, pensavam outros e existiam ainda aqueles que acreditavam em contos de fadas, mas para que acreditar quando o jornal diz que não é assim… Conforme foi abrindo-se o caminho aquele homem se aproximou cada vez mais, até que se sentava ao lado do ancião.

Aquele senhor era mesmo velho e parecia conhecer muito da vida e isso instigou o homem a perguntar sobre essa mesma vida, afinal ele ainda não conhecia nada a respeito dela. Quem sabe aquele senhor não tinha algo a dizer, algo útil para sua existência, algo que mudaria seu modo de enxergar as coisas. Pode ser que aquele homem fosse algo mais que um caminhante do sendeiro da vida, só ser caminhante não bastava a ninguém naqueles tempos, ao melhor dizendo, a quase ninguém, afinal, havia um diante dele.

– O senhor é muito velho e parece conhecer muitas histórias. Sempre gostei de histórias, nunca vivi nenhuma. Interessou-me bastante a do beijo, mas também nunca vivi, ou vivi e não soube. – comentou o homem.

– A ciência da vida é mais importante que a da morte e a do beijo mais que a do amor, pois assim como para reter a morte é necessário conhecer a vida para reter o amor é necessário conhecer o beijo.

– E o que seria o beijo?

– É um momento vivido. Já viveu algum?

– Não me lembro.

– Talvez seja porque o senhor não viveu e sim passou pela vida.

– Dizem que o primeiro beijo é o melhor.

– Não. O melhor é o último.

– Mas por quê? É muito triste que algo acabe. Principalmente uma história…

– Quando algo acaba podemos ter certeza que já havia começado antes. Pior é quando termina sem nunca haver começado. O começo só vale a pena quando existe o término nos lembrando que um dia começamos.

O velho encarou aquele homem. Seu olhar era vivo e penetrante. Ele já estava cansado. Falava muito. Muitos escutavam, poucos ouviam. Nem mesmo ele conhecia o porquê de saber que o que ele dizia era verdade, talvez fé, eu duvido. Era mais a vivência. A vivência supera a fé. Ele não sabia por que ele dizia a verdade, mas sabia que era verdade, então resolveu perguntar:

– Acredita no que eu digo?

– Não senhor, mas o senhor fala bem!

– Porque não acredita?

– Só acredito no que vejo.

– E porque não vê?

– Porque não está diante dos meus olhos, ora.

– E o que está diante dos seus olhos?

– O senhor!

– Acredita em mim?

– Não.

– Então seu erro não está em acreditar no que vê meu jovem e sim no que você pode ver, mas ainda sim não acredita.

– Só vejo infelicidade, morte e dor. E  que mais eu posso ver?

– Somente o que compactua com o que está dentro de ti mesmo.

– E o que o senhor vê?

– Um homem que gosta de histórias.

– E as histórias são verdades?

– Depende de quem as vê. para alguns são histórias, para outros verdades.

Depois disso o velho recolheu-se e foi para a casa de seu pai. O homem ficou calado. Depois de algum tempo foi embora e assistiu ao Show de Fim de Ano 2008 do Roberto Carlos. Ele não entendeu o que viu. Entendeu somente a história que ouviu. E como história ficou. Ainda mais depois do Roberto Carlos… Como disse, a vida passa, mas as histórias nunca… Depende de quem vê.

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quarta-feira, 15 julho 2009 - Posted by | Arquivado

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