Logos de Minas Gerais

boa noite e boa sorte

Letra C: O Capitalismo

untitled

 

03/12/2008

Esse é um texto baseado em uma experiência que tive a cerca de um mês atrás e tem como objetivo mostrar o quão sutil é o espírito de porco dentro de cada um de nós, o capitalismo vivo em nossas veias. Senhores, o que irei dizer aqui é bem simples. A princípio será confuso, mas prometo que a frente se explicará. A minha experiência me levou a crer que o espírito capitalista é como uma carroça.

Começarei do começo para que entendam. Havia em minha casa uma carência por um guarda-roupa decente e a minha prima, na sua infinda solidariedade, nos doou um que não servia mais a ela, visto que se mudaria posteriormente a uma casa onde ele não cabia. Neste ponto analisemos que se o mesmo guarda-roupa coubesse na futura casa este muito dificilmente seria doado, mas tudo bem. O que interessa nesta situação é que não havia meios de locomover aquele trambolho até minha casa facilmente, havia cerca de um quilômetro nos separando do mesmo, então minha amada mãe, em sua divina sabedoria simplificadora de problemas, contratou um senhor que possuía uma charrete, com a qual fazia o serviço de frete. Como muita engorda em um só porco gera sobras eu sobrei e fui encarregado de acompanhá-lo.

Nuca havia andado de carroça! Que momento feliz, que alegria, que gozo! Uma emoção infinda resultante de uma vontade comprimida de infância! Seria tudo muito fenomenal se eu não tivesse me dado conta de que havia uma mula puxando a carroça. Neste momento imagino que os mais hábeis na leitura de meus discursos já sabem aonde quero chegar… Havia uma mula, muito, mas muito cansada mesmo (ao menos parecia assim) puxando cerca de cento e cinqüenta quilos! E adivinhem? Subindo uma ladeira com uma inclinação de no mínimo 45 graus! Isso antes de, logo em seguida, levantar uns quatrocentos quilos na mesma ladeira (o carreteiro, o guarda-roupas e eu), isso desconsiderando a carroça e duas peças de cama doadas adicionalmente (desconsiderados por mim por hipocrisia, visto que o bicho levou o peso do mesmo jeito). Somente isso já seria o suficiente para refletirmos a respeito da situação vivida pela mula, o pior foi a minha reação diante disso: continuei lá, em cima da carroça, por umas duas horas até me dar conta de que tinha de descer…

A situação descrita serve para nos provar uma coisinha que vai doer no orgulho do amigo leitor. Somos as mulas do sistema! Vejam bem a minha conclusão sobre esse evento. A mula estava cansada, muito cansada e eu me dei conta disso, mas mesmo assim, continuei em cima da carroça. Sabem por quê? Porque eu estava sendo muito beneficiado com aquela situação e isso ofuscou até minha visão do que é ética. Eu sou grande defensor da causa contra os maus tratos dos animais, não duvidem disso, mas vejam que não é somente dos maus tratos que falo aqui, eu falo de algo mais… Quando um homem se vê em uma situação de benefício, mesmo que em detrimento do outro, pouco lhe importa a mula, ou seja, nós, tendo em vista o espírito capitalista como o dono da carroça.

A carroça, simbolicamente falando, não passa do fardo que carregamos (dos sistemas, dos pré-conceitos, das opressões, etc, etc, etc…) o qual carregamos sempre sob o açoite do nosso dono, o sistema, que não cansa jamais de aumentar a nossa carga, mesmo que em um morro, a sobrevivência.

Analisem agora o ponto mais mesquinho da história. O sistema é mau, mas não apenas para a mula. O dono jamais irá perceber esse ponto de vista (o da mula), ele sempre se verá com o mesmo cabresto que a mula, sabe por quê? Porque ele precisa da mula e do peso que ela carrega para sobreviver, e pior, ele precisa aumentar essa carga pois senão ele mesmo será a próxima mula da lista a carregar o peso. O dono se vê sob as mesmas leis que estão sobre a mula, porque se a mula não trabalha será ele a trabalhar de forma bem semelhante para outros. O fato de nunca observar a situação da mula nunca o permitirá enxergar que ele próprio é uma mula e que devia ajudar ao que açoita para se ver livre.

Senhores, essa é o capitalismo em sua forma mais simples, demonstrado na história mais simples que pode haver uma mula puxando uma carroça. Quando pararmos de agir como as mulas e começarmos a observar o capim que há na beira do caminho pelo qual passamos deixaremos de ser animais que pensam e seremos homens, homens capazes de largar a carroça, que simboliza a nossa própria ignorância e inconsciência.

Anúncios

quarta-feira, 15 julho 2009 - Posted by | Arquivado

Sorry, the comment form is closed at this time.

%d blogueiros gostam disto: