Logos de Minas Gerais

boa noite e boa sorte

O sirineu – Segunda parte

Resumo: Continuação da primeira parte da crônica. Como disse antes trata-se de uma narrativa que trata da eterna batalha entre interesses e valores. Amor ao próximo e cotidiano. Recomendo que não leiam essa parte sem haver lido antes a primeira.

“O enfermeiro deixou o lugar e voltou acompanhando um senhor que até o momento que entrou no quarto não havia reconhecido. Era o assaltante.”

[…] Ele me jogou às migalhas para os braços dela e sacou o revólver novamente. Era o fim.

E não me venham com essa de que a vida passa diante dos seus olhos, no meu caso a preocupação foi com o que seria dela depois da minha partida pouco heróica para as barras do inferno. O homem apontou a arma para mim como se fosse escolher onde doeria mais o tiro ou onde eu teria menos agonia e eu acompanhava seu olhar sem saber o que passava por aquela cabeça. Será aqui? Ou ali? Ah, sim, aqui… Ele deveria estar pensando isso. Apontava para minha cabeça, meu peito, minhas pernas. De quando em quando apontava para ela, era justamente aí que usava o resto das forças que eu tinha para me colocar o máximo possível na frente dela.

Esses segundos cruciais demoraram horas. E no findar do cantar desses segundos ele disparou. Se um anjo estivesse passando por ali de certo seria baleado, pois o infeliz disparou para cima. Algumas pessoas que naquele momento passavam por aquele beco. Pessoas distraídas, distraídas. Nesse momento todas deixaram seu mundinho egoísta e indiferente e nos perceberam ali. Muitas abaixaram, muitas correram, uma ficou e olhou bem para o acontecido, depois correu a danada. O assaltante, ainda com o braço levantado olhou para mim e começou seu discurso.

– Eu ia matá-lo e em seguida mataria ela. Só não o fiz porque há muito não vejo uma pessoa com um ímpeto tão grande de salvar uma pessoa. De certo não é só mais uma pessoa. Se fosse faria como todas essas pessoas atrás de mim, que correm sem dar  a menor importância para o que se passa aqui ou para suas vidas efêmeras. Você me lembra eu. Só que no seu caso vou deixar que dê tudo certo para vocês. Nada pessoal, só negócio.

E virou as costas. Saiu caminhando tranquilo e sereno como se nada tivesse acontecido. Virou à direita na rua e não o vi mais. Não demorou muito para chegarem os carros de ambulância e polícia. Eles só chegam rápido quando estão certos de que encontrarão um corpo frio. Para o azar deles o meu ainda estava quente, ainda mais nos braços dela. Ela era  muito forte. Quem era eu perto daquela força infinita de mulher. O rosto dela foi a última coisa que vi antes de cair em desmaio. A minha vontade sobre-humana de mantê-la viva fora o placebo que ma mantivera acordado até aquele momento.

Oito costelas quebradas, dois dentes quebrados, braço direito quebrado, fraturas na coluna e crânio, ombro destroncado, cortes profundos na testa e nas costas, isso sem falar que eu estava roxo e azul. Esse foi meu quadro clínico ao chegar ao pronto-socorro, uma calamidade. Sorte que eu tinha plano de saúde, caso contrário seria mais um a engrossar primeiramente as filas do hospital e depois a de caixões que seguem para o cemitério do governo.

Quando acordei estava em um quarto quentinho, era de madrugada. Minha cabeça repousava sobre um macio travesseiro e meu corpo estava coberto por um edredom. Mais acima da barriga senti uma pressão leve e quentinha, era a cabeça dela que havia adormecido em uma poltrona ao lado da cama. Fiquei feliz naquele momento e admito que cheguei a chorar. Fiquei acordado pensando no acontecido até o amanhecer do dia. Já estava bem melhor, com certeza! Quem diria, fiquei em coma seis dias! Pareceram-me oito diárias e rotineiras horas de sono. No fim das contas já podia até receber visitas e foi numa dessas que o curioso aconteceu.

Ela havia ido descansar, eu mesmo fiz questão de botá-la para correr daquele quarto, estava ali há seis dias a fio! Só saia para comer e se trocar. Com certeza merecia descansar. Quando menos esperava o enfermeiro anuncia que tenho visita. Visto que era uma cidade desconhecida até essa viagem para mim e que nenhum parente sabia do ocorrido ali me assustei logo.

– E quem é?

– Anunciou-se como um amigo do senhor.

– Amigo? Que amigo?

– Seu nome é Otávio Amaral da Cunha. Imaginei que o conhecesse, pois pagou todos os custos de sua estadia aqui, senhor. Mesmo com sua cobertura total no plano de saúde. Curiosa opção, mas se não o conhece irei dispensá-lo.

– Espere! Deixe-o entrar.

– Como o senhor quiser, mas devo perguntar se tem certeza disso. Se não o conhece…

– Sim, sim. Agora que me disse essa nova eu fiquei bastante intrigado.

– Tudo bem, vou buscá-lo. Aguarde um instante sim?

– Obrigado.

O enfermeiro deixou o lugar e voltou acompanhando um senhor que até o momento que entrou no quarto não havia reconhecido. Era o assaltante.

CONTINUA…

Boa noite, boa sorte.

[LEIA MAIS –> RECANTO DAS LETRAS: http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=44834%5D

Anúncios

domingo, 9 agosto 2009 - Posted by | Arquivado |

1 Comentário

  1. […] O sirineu – Final | Ago 10th 2009 Resumo: Terceira e última parte da crônica, parte essa que foi tão esperada por todos. Mais uma vez recomendo que não leiam esta parte sem antes ler a primeira e a segunda. […]

    Pingback por O sirineu – Final « Logos de Minas Gerais | segunda-feira, 10 agosto 2009


Sorry, the comment form is closed at this time.

%d blogueiros gostam disto: