Logos de Minas Gerais

boa noite e boa sorte

O sirineu – Final

Resumo: Terceira e última parte da crônica, parte essa que foi tão esperada por todos. Mais uma vez recomendo que não leiam esta parte sem antes ler a primeira e a segunda.

Final chocante e moralizante, talvez inesperado. Finalmente vocês saberão o por que de O sirineu.

[…] O enfermeiro deixou o lugar e voltou acompanhando um senhor que até o momento que entrou no quarto não havia reconhecido. Era o assaltante.

Confesso que por essa eu não esperava. Eu poderia ver ali o Batman que não me espantaria tanto! Estava ali, diante dos meus olhos, o homem que uma semana antes me dera cadeiradas e socos, como se nada tivesse acontecido. Só poderia ser ele! Era um senhor de uns 40 anos muitíssimo bem vestido. Com terno preto e gravata borboleta, uma longa e simples calça branca, sapatos engraxados e um relógio grande e dourado no pulso. Era moreno bem escuro e tinha um bigode repartido em dois. Seu cabelo era demasiado ruim, creio que essa é a palavra, grande, denso e preto. Avolumado na parte traseira. Usava um óculos oval nas pontas que se ajustava em seu nariz deixando-o abaixo dos olhos. Estava com flores nas mãos.

Caramba! Ele parecia mais assustador no beco. Foi para este que eu apanhei! Não creio – pensava eu enquanto ele se aproximava. O enfermeiro deixou o lugar, mas pude perceber que acompanhava a situação suspeita do lado de fora, pela minúscula janela da porta do quarto.

– Bom dia. – disse ele.

– Bom dia.

– Creio que já nos conhecemos. Posso me sentar nesta poltrona?

– Espere um minuto senhor! Se não me engano foi senhor que me causou todos esses danos. Como pode chegar aqui ao meu quarto e fingir que nada aconteceu? Melhor, como chegou até aqui?

– Se eu bem me lembro foi eu a poupar sua vida também. Se não fosse por mim talvez eu estaria visitando-o em um cemitério. – fez uma pausa – Eu não fui embora depois do acontecido, eu esperei o socorro chegar e o segui até aqui.

– Seguiu-me? Com que objetivo? Já não causou danos demais?!

– Os danos causados ao senhor não são nem metade do que poderiam ter sido e o senhor bem sabe do que digo. O meu objetivo aqui é justamente resolver essa situação. Creio que o senhor tem sorte de ela poder ser resolvida com palavras e não simplesmente com um ramalhete de flores sobre uma cova.

Não me lembro de haver permitido que ele se sentasse. Ele mesmo assim o fez, mas não sem antes depositar as flores que levava sobre a mesinha ao lado de minha cama.

– Peço que, por favor, me deixe explicar o porquê de tudo isso.

– Senhor, confesso que não vejo motivos para querer matar outra pessoa dispondo de recursos para se vestir como o senhor se veste.

– E o senhor acha realmente que tudo no mundo gira em torno dessa porcaria?! Não ofenda minha inteligência senhor! Francamente crê que eu sairia na rua agredindo pessoas por dinheiro?! – disse alterado. Senhor, senhor, existem coisas mais nobres sobre os céus.

– E quer que eu acredite nisso, nobreza simplesmente?

– Pareceu ter acreditado quando defendeu sua mulher senhor. Ou acha que conseguiria entupir com seus miseráveis centavos o cano de meu revólver ou mesmo usar seus efêmeros reais para fazer um unguento curativo dos índios da floresta. Saiba, senhor, que se fosse um pouco menos nobre estaria nesse momento na companhia de Satanás.

É, eu me calei com essas palavras. Deixei-o falar e acredite, o homem falou.

– Senhor, eu fiz isso tudo por apenas um motivo: Eu não suporto mais a vida. Sabe o que é acordar todos os dias sem provar o doce sabor da vida e adormecer beijando a face da morte e não morrer? Senhor, a menos de um mês  eu fui o homem a ser assaltado naquele beco e aquele mesmo beco foi sepulcro da minha mulher, sabe por quanto? Cinquenta reais! O homem só queria essa mincharia e eu, senhor, não a tinha! – nesse ponto o homem começou a desaguar em pranto, um pranto muito amargo e doloroso, como uma ferida que não vê antibiótico há anos. – Ele a matou com doze tiros! E eu? Eu vi tudo, senhor, em um canto daquele beco com pelo menos duas vezes os ossos que o senhor tem quebrados, como um verme, como um animal, como um lixo de ser humano. Ela tentou ME defender, senhor! Ela! Eu não fui homem o suficiente para mantê-la viva. Ahhhhrgh.

O homem colocou as mãos na cabeça desesperado. Parecia não saber daquela terrível cena de horror para o momento presente, parecia revivê-la incessantemente, tiro a tiro. Eu fiquei desarmado. Meu Deus! O que fazer?

– Eu acordo com isso e durmo com isso há trinta dias e parecem trinta anos! Meu coração não quer deixar meu corpo descansar. Meu Deus, é um fardo muito grande! É uma cruz pesadíssima! O homem que fez isso a ela nem sequer foi preso… Minha doce esposa… Minha doce esposa, senhor… Ele a desfigurou com balas! Com balas!

– Acalme-se homem…

– COMO!? – para minha surpresa o homem ficou de pé e tirou mais uma vez aquele revolver, desta vez de um suporte escondido sobre a barra da calça e segurou a arma com as duas mãos, como se segurasse um bebê. Essa foi a deixa para o enfermeiro acionar o alarme da segurança.

– Calma, calma! Eu sei que isso o atormenta senhor, mas que tenho eu a ver com isso?

– Essa é a pergunta certa a se fazer senhor? Diga-me: Quem se importa? Quem além de mim? Todos a esqueceram como se fosse um saco preto de lixo!

– Eu sei, eu sei. Eu só você se lembra… Que parece que só você se importa, mas este aqui diante dos seus olhos também se importa.

– Sim… Eu queria que mais alguém se lembrasse de como é comigo… Que mais alguém dividisse comigo esse fardo… Mas nem para isso eu servi. Eu preciso de um Sirineu, senhor! De um Sirineu bíblico que me ajude a carregar essa cruz. O senhor é o meu Sirineu.

– Eu serei seu Sirineu. Eu sei o que houve homem! Eu o ajudarei, serei seu amigo, eu te darei a força que precisa para continuar, para vencer! Eu me importo!

– Eu te poupei… Porque eu me vi no senhor e não pude achar justo que minha desgraça fosse responsável pelo sofrimento de mais alguém, por mais que eu precisasse disso… Eu preciso carregar sozinho… É a minha cruz! Oh meu Deus! – o homem virou as costas e começou a se dirigir à saída.

– Aonde vai? Você não pode ir nesse estado!

– O senhor… É um homem bom… Um homem que eu nunca poderei ser… Eu lhe dou essa dádiva, Sirineu, a de viver e ser vivido, a de amar e ser amado porque deste a tua vida em pró de outra pessoa que sei que para você vale mais que a sua e conseguiste mantê-la viva. Uma vida que valeu mais que a minha necessidade de tirá-la. – e foi saindo.

– ESPERE! Qual é mesmo o seu nome?

– O meu? Hahah… Machado de Assis.

– Até breve Machado. Obrigado por não ter sido egoísta. Por deixar-nos viver o nosso amor, pela vida dela ter valido mais que a minha e a sua juntas. Por causa disso sempre serei seu Sirineu.

– E a você obrigado por me ajudar a carregar essa cruz, mesmo que não até o fim. Eu renuncio o fim, eu prefiro que vivas como eu não vivi. Não herdarás minha cruz, pois o momento da minha crucificação chegou.

E terminou ainda fechando a porta. Quando fechou pude acompanhá-lo aflito por aquela pequena janelinha por onde observava antes o enfermeiro, ele ainda deu três simbólicos passos antes de acarinhar seu revólver pela última vez. O alarme soava, mas não soou o bastante para abafar o barulho da bala disparada por ele contra a sua cabeça, rebentando-lhe o crânio.

Boa noite, boa sorte.

[LEIA MAIS –> RECANTO DAS LETRAS: http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=44834%5D

Anúncios

segunda-feira, 10 agosto 2009 - Posted by | Arquivado |

Sorry, the comment form is closed at this time.

%d blogueiros gostam disto: